quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Nossa época converte sexualidade em ideologia - Trecho do Texto de Otávio Paz

(...) No Ocidente, desde Platão, o amor tem sido inseparável da noção de pessoa. Cada pessoa é única – e mais: é pessoa – por ser um composto de corpo e alma. Amar não quer dizer experimentar uma atração por um corpo mortal ou por uma alma imortal, mas sim por uma pessoa: uma fusão indefinível de elementos corporais ou espirituais. O amor não só mescla a matéria e o espírito, a carne e a alma, mas as duas formas do tempo: a eternidade e o agora. O cristianismo aperfeiçoou o platonismo: a pessoa não só é única como irrepetível. Ao romper o tempo circular do paganismo clássico, o cristianismo afirma que só vivemos uma vez sobre a terra e não há retorno. Violento paradoxo: a pessoa que amamos para sempre, amamos uma única vez. A herança árabe refinou a herança platônica e, finalmente, Provença consumou o que podia se chamar autonomia da experiência amorosa. Não é estranho que o caráter paradoxal do amor ocidental – alma e corpo, uma imortal e o outro mortal – tenha suscitado uma série de imagens memoráveis. O Renascimento e a Idade Barroca favoreceram a do ferro atraído pelo ímã. Foi uma metáfora convincente, pois na pedra magnética parecem fundir-se os pares irreconsilháveis de que está composto o amor. O imã, pedra imóvel, provoca o movimento do ferro; por sua vez, como o imã, a amada é um objeto que nos atrai e nos move até ela, quer dizer, é um objeto que se torna sujeito sem deixar de ser objeto. (...) Diferenciais entre o amor e o erotismo. O primeiro é histórico, quer dizer: se vamos dar crédito aos testemunhos do passado, aparece somente em certos grupos e civilizações. O segundo é uma nota constante em todas as sociedades humanas: não há sociedade sem ritos eróticos como não há sociedade sem linguagem e sem trabalho. Além disso, e principalmente: o amor é individual. Ninguém ama, com amor amoroso a uma coletividade ou a um grupo; apenas uma única pessoa. O erotismo, ao contrário, é social: por isso, a forma mais antiga e geral de erotismo é a cerimônia coletiva, a orgia, o bacanal. O erotismo tende a enaltecer não o caráter único do objeto erótico, mas suas singularidades e excentricidades – e sempre em benefício de algum poder ou princípio genérico, como a natureza ou as paixões. O amor é o reconhecimento de que cada pessoa é única e aí que sua história, na idade moderna, confunda-se com as aspirações revolucionárias que, desde o século XVIII proclamaram a liberdade e a soberania de cada homem. O erotismo, ao contrário, afirma a primazia das forças cósmicas ou naturais: nós homens, somos os joguetes de Eros e de Thanatos, divindades terríveis. (...)

Um comentário:

Herr Schwartz disse...

Amo-te.... enlouquecidamente!